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Crônicas Agudas

Crí-Crítica
Uma Crítica a Crítica

POR SERGIO TEPERMAN



Já disse uma vez que, em jornalismo de arquitetura, sou cronista e, às vezes, estou crítico - ou seja, meu problema é crônico e meu estado, crítico. Mas acredito firmemente que é possível, é devida e faz falta uma boa crítica de arquitetura no País, e todos os próprios entrevistados por AU no número anterior (AU 170, maio) têm as condições de fazê-lo, se tiverem oportunidade. Já houve outros críticos importantes que não estão mais entre nós, que ainda não subimos no telhado, como Silvio de Vasconcelos, Lucio Costa, Lourival Gomes Machado e o divertido Marcos Vasconcellos, por exemplo.

Se formos buscar no mundo, a Cica (Comitê Internacional de Críticos de Arquitetura), à qual alguns de nós pertencemos, possui uma lista extensa de uns 100 profissionais do mundo todo (não são tantos, portanto). Contudo, mesmo eles serão realmente críticos ou "apenas" profissionais consagrados, que escrevem de vez em quando?

A palavra crítica tem um sentido dúbio. Por exemplo, ninguém aceita ser criticado, o que por si só já significaria que a crítica é sempre negativa. Seria necessário consertar essa questão semântica.

Se ninguém aceita ser criticado, a questão se agiganta quando se trata de profissões "culturais": música, literatura, arquitetura, teatro e cinema/TV, artes plásticas e a nossa arquitetura. Quem exerce essas profissões se expõe individualmente e todos (entre os quais me incluo) temos uma vaidade natural, comum às atividades que envolvem arte - muito embora essa virtude/defeito humano não seja exclusivo dessas carreiras e, em arquitetura, a arte seja apenas um dos componentes.

Os cientistas criam, talvez muito mais do que os artistas, e também defendem suas teorias, ainda que contestadas até o fim de seus dias. Exemplos maiores: Galileu e Einstein.

Nesse contexto criam-se inimizades e ódios eternos e mortais, com seus buracos negros. Portanto, não é fácil fazer crítica de qualquer espécie. Uma vez, em uma reunião na redação de AU, um ex-colaborador comentou que adorava trabalhar com a revista porque assim fazia muitos amigos. Tive de responder que talvez a qualidade de suas críticas não fosse tão boa...

Há que diferenciar a crítica dirigida, em órgãos especializados ou livros, que de fato são lidos (quando o são) apenas pelos integrantes do metier, e a crítica que pretende atingir o grande público.

Ao contrário de outros países, como Argentina e Reino Unido, onde o tema arquitetura e, em especial, urbanismo, são tratados em suplementos semanais e até na imprensa diária, no Brasil nunca foram assunto. Invariavelmente, o que sempre deu manchete em termos de arquitetura, engenharia e urbanismo por aqui foram erros e catástrofes. É até compreensível, se levarmos em conta que na página policial não interessa dizer que alguém, importante ou não, está vivo, bem e morando em Paris (he's alive, well and living in Paris...). Isso não vende. O que vende são crimes e acidentes terríveis. Não é diferente em arquitetura: um grande prédio bem construído não vale nada como notícia se comparado a um pequeno prédio que caiu.

Pode-se argumentar, e com razão, que os suplementos culturais dedicam páginas e páginas à literatura, música e dança e, ainda mais estranhamente, às artes plásticas. Mas quem lê os suplementos culturais, que são mais chatos e tediosos até do que a seção de classificados? Apenas as seções de variedades têm grande público, porque informam e comentam o que está acontecendo no momento nos shows. Mas pintura e escultura, sejamos honestos, é assunto para meia dúzia de iniciados (ou terminados).

No entanto as coisas estão mudando. Tenho visto mais e mais artigos, ou melhor, reportagens sobre novos planos e obras em nossos jornais, com análise ainda que superficial sobre o impacto que provocarão na vizinhança, no bairro ou na cidade. Às vezes certos avanços da tecnologia colaboram para isso. A introdução da computação gráfica nos jornais permitiu tornar extremamente atrativas as matérias que envolvem urbanismo, com um impacto visual chamativo e didático que consegue atingir um grande número de leitores - afinal, a imprensa precisa deles para sobreviver e vender anúncios.

E assim, por métodos indiretos, o grande público acaba tendo contato com assuntos de arquitetura que atingem e afetam muito mais a sua vida do que a última exposição de um promissor e desconhecido artista de Rondônia, filho de irlandeses que se estabeleceu em Embu das Artes.

Tudo isso é ótimo como divulgação, que é do que a nossa profissão mais necessita, mas obviamente não é crítica. Da mesma forma que não é crítica - e nem pretende ser - a forma de apresentar projetos em todas as revistas de arquitetura. Na verdade, é uma descrição do projeto que, se dirigida a arquitetos, é até redundante pelo entendimento que os profissionais têm.

Até me pergunto se a reprodução de inúmeros desenhos de plantas tem tanto interesse assim (e dá trabalho fazer). Se não bastaria uma implantação, algumas plantas esquemáticas do espaço como um todo e um corte significativo do projeto.

Aqui vem a questão básica: eu não saberia responder à pergunta "o que é crítica de arquitetura?". É como tantas coisas agradáveis de fazer, mas que não dá para explicar. Talvez eu pudesse dizer como gostaria de fazer uma crítica de arquitetura.

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